Lições de um Fantástico Capitão

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Ontem falamos aqui sobre a perversidade dos costumes e como a adoção destes sem uma reflexão maior pode acarretar prejuízos de natureza diversa para um indivíduo ou toda a sociedade. Hoje falaremos de um costume secular e cuja adoção em massa está, em minha opinião, na raiz de muitos dos problemas que enfrentamos em nossa vida diária. Refiro-me ao modelo de educação formal adotado pela grande maioria dos países e famílias – aquele onde a escola assume o papel fundamental na formação de crianças e jovens e no qual pais e demais adultos se abstém de seu papel de educador, seja pela incapacidade de ensinar (já que foram formados dentro do mesmo sistema falido que ajudam a perpetuar) ou por simples preguiça em fazê-lo.

Com 50 anos vividos posiciono-me num ponto da vida onde consigo enxergar ao menos duas gerações à frente (avós e pais) e duas atrás (filhos e netos – estes últimos não meus, mas de amigos). Nestas 5 gerações vejo um ponto em comum: um sistema educacional baseado em um modelo de ensino totalmente anacrônico e arcaico, onde salas de aula com formatação do século passado e práticas da mesma época, insiste em achar que é capaz de formar um cidadão que pense e que possa viver de forma harmoniosa com os desafios de nossa época. Chego a ficar atônito ao ver que o que é ensinado hoje nada difere daquilo que me foi transmitido e que, obviamente, colaborou bem pouco com a minha formação. Esta, se não tivesse sido complementada pelo interesse próprio na leitura – outro hábito raro nas sociedades modernas – teria ficado a desejar.

É realmente uma pena o que acontece com nossas crianças e jovens: colocados em um ambiente de ensino obsoleto nada mais fazem do que se adaptar ao sistema, decorando os temas que lhes serão cobrados nos testes bimestrais e empurrando para o futuro a sua chance de aprender. Quais as opções que lhes são dadas? A quem recorrer se houver o desejo legítimo de aprender a pensar, a raciocinar, a formar opiniões, a criticar? Quem ao seu redor lhe incentiva e lhe apresenta desafios à altura de sua inteligência e capacidade de desenvolvimento?

O que vemos é uma deterioração sem precendentes: a tecnologia e o acesso à informação imediato aceleram o comodismo e a despreocupação com o futuro. Afinal basta “dar um Google” e “sabemos” tudo em um clicar na tela. De lado fica morto o processamento da informação, a interpretação própria daquilo que se lê, o filtro afiado daqueles que tem a sagacidade do pensar.

Olhando em retrospectiva não posso deixar de fazer a mea-culpa já que não agi de forma diferente com os meus dois filhos: eduquei-os dentro do mesmo modelo e paradigmas que estamos inseridos. Fui pai jovem e não tinha àquela época o discernimento que hoje julgo ter. Nos últimos anos, sempre que o assunto de uma determinada conversa chegava ao tema “filhos” eu defendi a adoção de um sistema totalemte diferente de educação. Sistema este que adotaria, caso tivesse a oportunidade de novamente educar alguém. Creio que desde cedo a criança deva ser estimulada a pensar e a criar suas próprias opiniões e posições. Uma educação forte e baseada em poucas disciplinas (Línguas, Matemática, Filosofia e Lógica) combinado com uma extensa prática de leitura e de convivência social é o caminho que levaria a um outro patamar de cidadania. E isto liderado por pais ou tutores que tivessem real capacidade de transmitir estes ensinamentos, seja pelo exemplo ou pelo direcionamento correto.

Esta utopia, diriam alguns, foi mostrada recentemente em um ótimo filme que ainda está em cartaz no cinema: O Capitão Fantástico, com Vigo Mortensen. Na tela Vigo é um pai de 6 filhos que se isola e os educa nos moldes acima descritos. A cena na qual ele confronta o preparo de seus filhos com os de seus sobrinhos (educados de forma tradicional) é hilária e ao mesmo tempo representativa de tudo aquilo que acredito ser o caminho para uma verdadeira revolução humana. Vale conferir!

 

 

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