O vício dos bons costumes

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Há algo que me aborrece de maneira irreparável naquilo que chamamos de costume. Refiro-me não ao hábito que, por decisão própria ou não, incorpora-se ao indivíduo e o transforma, normalmente para pior – sim, pois criar bons hábitos vai, por alguma razão que confesso ter dificuldade em compreender, contra a natureza humana. Já os maus… Portanto a minha referência aqui não abarca aquilo que algúem quer dizer quando fala, por exemplo, “tenho o costume de ler antes de dormir” ou “é meu costume não comer carne” – esses e outros são hábitos, rotinas que nos acostumamos a realizar.

A minha indignação é contra os costumes que, por serem aceitos e quase que impostos como que regras pela sociedade, escondem a ruína do pensamento e do livre direcionamento humano. Eles transformam as pessoas em simples autômatos que replicam o que deles é esperado, criando justificativas vazias que amparam verdadeiras agressões ao bom senso e a racionalidade. Há inúmeros exemplos que abrangem costumes individuais, familiares, organizações (empresas, clubes, etc), religiões e sociedades de uma forma geral. É importante frisar que, mesmo no caso dos costumes individuais, o elemento em comum em todas as situações é a origem da atitude, sempre refletida no problema maior e recorrente da psique humana chamado aceitação – quem não se conduz pelos bons costumes ou rejeita os tidos como maus, corre o risco de ser visto como um pária ou, se der sorte, um excêntrico. Ou seja, não há como se falar em costume sem um contexto social.

Para não correr o risco de teorizar sem exemplificar, vão aqui algumas situações que ocorrem no nosso dia a dia e que usarei para aprofundar sobre o caráter perverso de nosso comportamento e a força dos mesmos em nos moldar e automatizar. Quando alguém fala por exemplo que está acostumado a mentir para não criar uma situação contrangedora com um terceiro – como nos corriqueiros casos onde as pessoas se cumprimentam e perguntam “tudo bem?” e a resposta padrão “tudo, e você?” – na verdade o que esta pessoa está fazendo é se apropriar de um mau hábito coletivo que imuniza a verdade em prol da convivência superficial. É claro que, se formos dizer todas as vezes como de fato estamos a todos que nos perguntam, criaríamos situações não só constrangedoras, mas também pouco práticas, razão pela qual o subterfúgio passa a ser aceito e ganha a forma de costume. O problema é que mentir é um mau costume, não importando se o fazemos para impedir um mal maior. É assim portanto que, passo a passo, vamos nos transformando no que chamo de autômatos – seres previsíveis e opacos!

Ao ampliarmos o contexto dos costumes para grupos maiores (famílias, organizações, sociedades) vemos comportamentos ainda mais devastadores, na medida em que a adesão aos mesmos é requerida dos indivíduos praticamente de forma compulsória. Vivemos recentemente um evento que exemplifica isto de forma peculiar: a “passagem de ano”. A mudança de um ano-calendário para o próximo é marcada em muitas sociedades por verdadeiros alvoroços, nos quais as pessoas se agrupam de formas aleatórias (casal, amigos, família, multidões) para celebrar um evento que, criado pelo homem, não tem significado real que justifique a mobilização. Não obstante, é um costume secular e nos vemos envolvidos em sua celebração por um processo quase que de osmose social – se todos fazem eu também faço e assim ajudo a perpetuar o mesmo. Experimente não comemorar o reveillón: se você ficar em casa, sozinho por exemplo, já terá que justificar e/ou mentir para todos à sua volta, que o acharão um louco ou passarão a achar que você está com depressão ou algum outro mal. Depois de vencer esta etapa ainda terá que navegar pela próxima semana e por todos os seus ciclos sociais (reais e agora virtuais) recebendo e desejando “Feliz Ano Novo”. O costume se imporá sobre você e é provável que se renda, mesmo que não compreenda porque o simples passar de um dia para o outro é tão comemorado por uma sociedade que não tem a capacidade de celebrar e viver a vida a cada dia que lhe é apresentado. Ao apagar dos fogos de artifício e ao arrefecer do estado etílico que muitos se entregam a rotina se impõe e destrói toda a esperança.

Na prática o que verdadeiramente procuro questionar aqui é a nossa passiva aceitação de tudo que nos é colocado e apresentado como regra ou fato consumado. Acho que precisamos voltar a usar melhor o nosso discernimento para fazer escolhas em todos os campos de nossas vidas. E uma forma de fazer isto é refletir sobre nossos hábitos e costumes, verificando quais deles são benéficos a cada um de nós e quais se incorporaram ao longo de nossas vidas e nos desviam daquilo que realmente somos ou acreditamos. Bons costumes podem se transformar em vícios de caráter!

 

 

 

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