O fracasso das Olimpíadas – e não tem nada a ver com a Rio 2016!

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Lembro que quando eu era criança esperava ansioso pelos 4 anos que separavam as edições dos Jogos Olímpicos. Era uma competição sensacional, na qual o espírito da participação acima da vitória parecia estar de fato presente. Seria apenas o efeito da minha ingenuidade? Será que, de fato, isto nunca existiu além das manchetes gloriosas e das coberturas televisivas, sempre em conflito com seus interesses comerciais?

Pode até ser que os anos tenham me tornado um cético – e na prática de fato o fizeram! Mas creio que há algo que faz com que as Olimpíadas tenham perdido o seu charme, o seu apelo, a sua essência. Pelo que me lembro, o homem que resgatou esta tradição que havia morrido no século 4 – o célebre Pierre Frédy, ou Baron de Coubertin, hoje enterrado num humilde túmulo no cemitério de Lausanne – defendia que “a coisa mais importante na vida não é o triunfo, mas a luta, o essencial não é ter conquistado, mas ter lutado com grandeza”. 

Para mim o mais grave ocorreu quando o espírito do esporte amador foi esquecido e os Jogos passaram a admitir a participação de profissionais. Mesmo que alguns historiadores defendam a tese de que no jogos originais na Grécia antiga esta restrição não existia, a verdade é que a exceção nos jogos modernos foi feita há alguns anos e isto mudou completamente tudo. A combinação do profissionalismo com o excessivo uso dos Jogos como plataforma comercial de arrecadação de patrocínios e fortalecimento político, transformou o espírito da competição. Se em um primeiro momento isto ajudou a tornar o evento mais “completo”, os efeitos colaterais que vieram na sequência foram devastadores. Entre eles podemos citar:

  • a distorção do critério que determina a nacionalidade dos competidores, com a proliferação de atletas que mudam de país apenas para conseguir competir
  • o aumento dos casos de doping entre os atletas que vêem as Olimpíadas como plataforma de lançamento ou sustentação de suas carreiras profissionais
  • a perda da referência de que nos Jogos Olímpicos se encontram os melhores atletas amadores do planeta, com a excessiva permissividade que aceita a participação de profissionais
  • os confusos critérios em relação a este último ítem já que, por exemplo, no futebol se restringe a participação de muitos profissionais com o limite cronólógico de 23 anos de idade enquanto isto não acontece em outros esportes

Não obstante esta flexibilização em relação aos atletas profissionais, o que se vê é um interesse no mínimo ambíguo entre estes: enquanto esportes como o atletismo conseguem ainda comportar um mix de participantes profissionais (Usain Bolt sendo o exemplo máximo) e amadores (incluídos nesta categoria os “profissionais”que mal ganham para o seu sustento e como tal não podem assim ser classificados), outros como o basquete sofrem com uma deserção em massa dos melhores do mundo (leia-se NBA) que simplesmente não tem interesse pela competição.

A tal da Zika tem servido de ótima desculpa para uma infinidade de atletas de ponta que já desistiram dos Jogos do Rio – muito mais confortável do que ter que admitir que os Jogos não o interessam e não agregam nada para as suas milionárias carreiras. Como o título deste post deixa claro, não considero aqui os entraves específicos dos Jogos do Rio, muito ancorados em problemas atemporais e crônicos de nossa cidade e país maravilhosos. As notícias que chegam de lá a cada dia não deixam dúvidas de que deveríamos ter deixado outros países realizarem tal evento.

A verdade no entanto (ou ao menos a forma como a enxergo)  é que o interesse no evento é restrito às categorias nas quais o profissionalismo ainda não atingiu nível que promova o sustento acima do básico aos seus praticantes. Com raríssimas exceções (como por exemplo o time de vôlei do Brasil), o que vemos é um grupo de atletas desmotivados competindo com outro grupo que vê no evento a chance de ter algum significado em suas miseráveis vidas.

Acho que já é hora do Barão gritar do além e iluminar as lideranças do COI para que revisões profundas sejam realizadas.

2 thoughts on “O fracasso das Olimpíadas – e não tem nada a ver com a Rio 2016!

  1. É a típica história de se fazer algo, sem entender o seu sentido. Os esportistas de hoje confundem a superação do esporte e a tal disputa honrosa das nações com os contratos de patrocínio. É claro que um atleta profissional tem de ganhar dinheiro, mas os jogos olímpicos são uma coisa totalmente diferente. Acho que muitos não enxergam seus reais significados. Vivemos a era do esporte corrompido?

  2. Excelente análise.O mundo como um todo está perdendo a pureza.
    O momento em que acontecem esses jogos no Rio de Janeiro é o pior momento já visto no Brasil.Estamos mergulhados num mar de imundices literalmente.
    As TVs do mundo nos expõem vergonhosamente.

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