A nova inspiração

Categories Artigo, Cotidiano, Filosofia, Geral

Há muito venho adiando minha crescente vontade, ou quem sabe necessidade, de escrever. Talvez este adiamento esteja impregnado pela ansiedade e perplexidade que, assoladas por recentes acontecimentos, fazem do lapso temporal da ação a doce fuga do reconhecimento. À esta reclusão precisa-se opor com uma visceral força de vontade – e é isto que, “recluso” no meio de uma perdida multidão que a meu lado circula, isolo-me e inicio este insólito relato.

Antes de deixar pensamentos, reflexões e constatações tomarem conta da narrativa, permitam-me analisar (ou seria justificar?) os adjetivos que acima utilizei para a paralisia que me impediu dar vazão à intuição e desabafo presentes na escrita. A ansiedade é o primeiro deles e tangibiliza-se numa profunda e incômoda sensação de que o tempo terreno ganharia uma inexorável aceleração na medida em que expostas fossem as melancolias individuais, potencializadas por fatores externos, ou interpretações destes, sobre os quais, mais à frente, falaremos. O adiamento da ação gera ansiedade e esta impede a primeira – perdemo-nos neste intricado paradoxo e… a vida se vai! Seria a ânsia um atributo humano, presente de forma tão arraigada em nossas vidas, do qual é impossível escapar? Seria ela o combustível que nos mantem vivos, na medida em que padroniza e empacota sempre para o amanhã o encontro da saciedade (física, intelectual ou espiritual)?

É fato conhecido e por séculos debatidos por escritores, intelectuais e filósofos, a constância da infelicidade humana. Estamos sempre buscando uma forma de satisfazer algo impossível de ser apaziguado: a nossa certeza, na maioria das vezes escondida, de forma ativa pelas atividades rotineiras ou passiva pela simples incapacidade de reconhecer, de que a busca deste estado de satisfação pessoal é irrelevante para a humanidade. Basta olhar para os lados e, com um pouco de imaginação, reparar…

 

Domingo, 10hs, num aeroporto qualquer…

 

Debaixo de um uniforme engomado de piloto, ostentando orgulhosamente três importantes listras em suas ombreiras, encontra-se um negro “vencedor” que provavelmente enfrentou e ultrapassou sucessivos e crescentes obstáculos e preconceitos na busca do seu sonho ou, quem sabe, da sua sobrevivência. Em sua desgastada mala, repleta de adesivos sujos como as próprias lembranças dos lugares que pretendiam evocar, a bagagem para mais uma longa e distante semana, longe de todos e perto de tudo. Sua silhueta denuncia a ausência de cuidados básicos, certamente gerada pela rotina dentro de sua falta de rotina. A fisionomia, pretensamente alegre e descontraída, combinada com o diálogo que se mostra entusiasmado, mas que certamente não deve derivar dos temas básicos e fúteis de sempre (tempo, trabalho, etc), parece, à distância, denunciar a mesmice assustadora da multidão.

O homem de meia-idade, bronzeado ao longo de seu sonhado descanso anual, simplesmente desconhece aquela que, apesar de estar ao seu lado por tanto tempo e naquele instante, nada em comum tem com ele. As mãos dadas nada mais são que o testemunho do hábito gerado ao longo da vida em comum, não tem mais a forma da paixão de outrora, repousam flácidas, quase invisíveis, mas lá estão. A vestimenta feminina simboliza o mau gosto da modernidade alternativa e, num arroubo de anacronismo, parece perder-se no tempo e espaço.

Isolada em seu mundo virtual e alheia ao ambiente que a cerca, a jovem dedilha em seu inseparável teclado processante o importante e-mail que do outro lado será lido pelo seu amor, chefe ou sabe-se lá quem. Envolve-se no emaranhado de botões, luzes e cores deste espaço artificial e perde-se no tempo, sem se dar conta, sentindo-se útil, produtiva. O sol que brilha e aquece a janela ao seu lado é simplesmente ignorado, perdido na paisagem comum, como um fundo de tela que nem mais se nota.

Vindo do oriente onde as tradições e a sensibilidade ainda sobrevivem, o casal indiano parece assustado, claramente fora de seu ambiente. Forçados pela sobrevivência ou estimulados pelo sonho ocidental, combinam de maneira aleatória e não sincronizadas as peças de sua vestimenta – violentam-se sem perceber, aderem ao padrão. Seus olhos fundos e distantes parecem buscar na imensidão da parede branca que fitam, o passado que coincide com seu sonho de futuro.

Sabendo de sua importância para a sociedade que paradoxalmente o rejeita e blinda com um muro o seu acesso geográfico à terra dos sonhos, o jovem mexicano ostenta seu celular recém adquirido e, sem preocupar-se em ser ouvido, relata suas mais recentes aventuras e planos. Viaja sem nada em suas mãos, simbolizando com isto a liberdade tão acalentada e tão efêmera. Parece pertencer ao mundo que o cerca, mas de fato não é isto que acontece – e ele sabe disto!

O que vemos de comum nas personagens acima, amostra de uma aleatoriedade temporal e geográfica, é a alta probabilidade de que todos sintam-se vazios, dada-se a chance de uma reflexão, mesmo que breve, sincera e profunda. Esta sensação de vacuidade advém do fato de que todos nós exageramos na valorização do outro, atribuindo a este o julgamento de nossos sucessos, valores ou padrão de felicidade. Neste contexto a ansiedade é simplesmente o efeito colateral da mais perversa das drogas já inventadas pela humanidade e que consiste nela própria – a incessante e infrutífera tentativa, realizada há séculos, de transformar o ser humano em um ser social e capaz de conviver em harmonia com seus semelhantes.

A história está farta de exemplos neste sentido mas, como não vivemos no passado, e sim no futuro (isto mesmo, quase ninguém vive o aqui e agora), simplesmente ignoramos, por comodidade e fuga, a impossibilidade de construirmos um mundo harmônico. É antinatural fazê-lo. Nossos instintos nos levam na direção contrária, na qual acreditamos ser possível um “mundo melhor”, mesmo quando os fatos mostram o contrário e os erros apenas se repetem com pequenas variacões sobre o mesmo tema. O otimismo intrínseco do ser humano é, ao mesmo tempo, o seu alimento e o seu tormento, a sua destruição.

A perplexidade mencionada no início desta narrativa como um dos fatores que me paralisaram por muito tempo, encontra-se relacionada com a minha própria condição humana e, por consequência, do recém referido otimismo intrínseco que, aproveitando-se do envolvimento inconsciente com as distrações terrenas – trabalho, lazer, família, etc – fazem-me ainda crer, irracionalmente, ser possível encontrar gente de verdade em meio a esta coletividade estúpida denominada humanidade.

Fico perplexo quando vejo o materialismo apoderar-se de ambientes teoricamente sagrados dos templos e religiões; quando deparo-me com a frieza e falta de caráter com os quais compromissos assumidos são desfeitos, como se isto fosse algo normal; quando a palavra empenhada nada vale; quando o sofrimento humano é incapaz de sensibilizar governos, distraídos com seus interesses próprios; quando percebo ser impossível conter guerras e conflitos entre nações e religiões; quando a “sabedoria” não é capaz de impedir a deterioração do meio ambiente; quando a corrupção impera nas organizações públicas e privadas; em perceber que a aparência sobrepõe-se ao conteúdo em todas as relações humanas; ao assistir à virtualização das relações e o distanciamento paradoxalmente trazido pela globalização e tecnologia; com o descaso do cidadão comum frente aos problemas que à ele se avizinham; com o discurso pomposo dos líderes empresariais que por detrás enconde incompetência e enganação; com a manipulação da boa fé dos inocentes. Enfim, fico perplexo com o mundo em que vivemos e com a nossa incapacidade de reinventá-lo.

O mesmo homem que é capaz de dominar tecnologias fantásticas e aplicá-las para o seu próprio bem, demonstra absoluta incapacidade para a resolução dos problemas mais simples que nos assolam. Desde assuntos de ordem material como a fome e a miséria que permeia boa parte de nosso planeta, até o mais remoto de seus pesadelos: a saciedade de sua alma. Trata-se, a meu ver, de um insuperável problema de alocação de recursos coletivos. Nossa atenção está voltada aos meios e não aos fins que norteiam a nossa existência. A dificuldade, ou seria a impossibilidade, do processo de auto-conhecimento e encontro de um estado de completude nos empurra para um modelo de sociedade no qual nos rodeamos de distrações a fim de evitarmos encarar de frente a nossa transitoriedade terrena. Já que a vida é passageira e o pós-morte é uma interrogação, capaz de ser contraposta apenas por aparatos metafísicos (dos quais as religiões são apenas a parte mais visível), criamos à nossa volta um arsenal de subterfúgios – nossa carreira, nossos projetos, nossos desejos materiais – e fugimos da incômoda e angustiante tarefa de entender o significado da vida.

Sempre questionei bastante a validade desta busca. Sendo homem, mineiro e engenheiro, toda a minha existência tem sido externamente (e frise-se esta palavra) pautada por uma adaptabilidade ao ambiente. Até aqui toda a cartilha padrão e politicamente correta foi por mim seguida: nascer, crescer, estudar, formar, casar, ter filhos, ter uma carreira profissional ascendente. Todas as “peças” estão tão bem colocadas no seu lugar esperado que ocorre-me às vezes a incômoda sensação de culpa por estar questionando sobre a minha existência e o vazio que parece acompanhá-la. Num mundo onde a maioria da população – e estamos falando de bilhões de pessoas – sequer tem acesso a uma vida que pudesse ser considerada digna do ponto de vista material, parece-me um exagero individualista ou mesmo um capricho “reclamar da vida”. Durante muito tempo critiquei aqueles que filosofavam ao invés de direcionar as suas energias no sentido de contribuir para a solução de problemas. Sempre achei que ao “fazer a minha parte” estivesse contribuíndo para o equacionamento dos desequilíbrios ao nosso redor.

Mas com o tempo passei a perceber que este mecanicismo e aceitação do mundo como ele é distraía-me do essencial, entorpecia a minha visão e enebriava meus pensamentos. Escrever relatos de situações rotineiras mas com a preocupação de analisar o que está por detrás de cada uma delas parece-me ser um caminho para a auto-expiação e, com um pouco de sorte e compreensão, para que este efeito possa se estender a outros.

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