O mundo que criamos e a estupidez democrática

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Você já ouviu falar nas ilhas de  Sanafir e Tiran? Elas estão localizadas no Mar Vermelho, a leste da Peninsula do Sinai e a oeste da Peninsula Arábica (clique aqui para ver no Google Maps). Pois há cerca de dois meses, os governos do Egito e da Arábia Saudita chegaram a um acordo que pôs fim a uma disputa que durava mais de 20 anos, e que discutia a soberania sobre as mencionadas massas insulares – a partir de agora, elas passam a pertencer, formalmente, à Arábia Saudita.

Este foi o último acontecimento político que mudou a “face da terra”, ou melhor, que alterou as artificiais fronteiras do mundo em que vivemos. Ao longo da história, as mudanças foram inúmeras e causadas tanto por resultados de guerras e acertos políticos (na maioria das vezes) quanto por alguns desastres naturais (para uma lista de tudo o que ocorreu desde os primórdios da história, clique aqui).

São estas mesmas fronteiras e delimitações, obviamente não naturais e muito menos estáticas, que servem como base para o nosso sistema de organização social, dando origem aos países e demais agrupamentos políticos-geográficos (estados, condados, cidades, bairros, etc). As coordenadas geográficas do local onde você nasceu são a base para determinar a sua liberdade (ou não) de viver aqui ou ali. Um total absurdo dentre os muitos que o homem foi capaz de criar ao se “organizar” ao longo do tempo. Fala-se muito atualmente sobre os movimentos migratórios, sobretudo aqueles determinados pela impossibilidade política ou econômica de sobrevivência em países ou regiões assoladas pela miséria e a guerra. Defende-se a soberania dos países mais ricos – normalmente mais atrativos àqueles que nada tem – e sustenta-se o direito dos que ali nasceram de deter a sua riqueza para sempre, esquecendo-se porém da origem perversa da mesma (na maior parte das vezes obtida pela usurpação e domínio de países hoje pobres).

As fronteiras geográficas (simples linhas em uma representação cartográfica também criada pelos homens) são cada vez mais fechadas e os movimentos nacionalistas ganham corpo e representação. Pobre humanidade que separa seus iguais!!

Na semana passada o plebiscito ocorrido na Inglaterra e que culminou com a decisão de sua população em deixar a União Européia (o famoso Brexit) reacendeu o debate sobre o nacionalismo, geralmente acompanhado de xenofobismo e outras mazelas. Além de exarcebar este triste movimento que despreza o caminho da colaboração e da convivência humana, o que ocorreu lá também chama atenção para outro grave problema das sociedades modernas e que chamo de falácia da democracia.

Defino este termo como a falsa crença de que o sistema democrático, no qual as decisões são tomadas por maioria simples da população, traz as melhores respostas às sociedades. Deixo claro aqui que não faço apologia a outros sistemas de governo (ditadura, socialismo, etc) que já se provaram ineficientes na condução da política coletiva. Questiono apenas a eficiência do sistema democrático que assume que todo e qualquer cidadão, não obstante a sua efetiva capacidade de refletir e opiniar sobre um determinado tema, tem o direito proporcional de fazer a sua opinião valer através do voto. Há uma série de circunstâncias que deveriam ser consideradas antes de se levar temas tão importantes ao voto popular.

Veja por exemplo, no já mencionado plebiscito inglês da semana passada, como o voto foi distribuído por faixa etária (apenas para pegarmos uma única dimensão adicional ao assunto):

18-24: 75% queriam ficar na UE
25-49: 56%
50-64: 44%
65+: 39%

Claramente aqui a opinião dos mais jovens é totalmente distinta da dos mais velhos. Pergunto-me se não seria o caso dos mais jovens terem um peso diferente na decisão, já que sofrerão muito mais as consequências da mesma ao longo de sua vida. Para a minha lógica de justiça a resposta é sim, eles deviam ser ouvidos com algum grau de prioridade.

Se analisamos a principal decisão que é colocada aos habitantes dos países democráticos de tempos em tempos – a eleição de seus governantes – a coisa é mais complexa ainda, já que não se trata aqui somente de um desbalanço de interesses por faixa etária, e sim de algo muito mais complexo: o preparo e o discernimento para entender e captar a real consequência de se eleger determinado candidato. O resultado do processo democrático é conhecido: em países onde a educação deixa a desejar, o domínio pleno de políticos corruptos e que usam a massa de manobra (a mesma que os elege) para se perpetuarem em um poder utilizado para seus próprios interesses é a tônica dominante.

Defendo sim a democracia no sentido de se haver um processo de escolha e debate dos principais temas da sociedade e evitar a concentração de poder nas mãos de poucos. Mas creio que a mesma só evoluirá para um sistema que de fato provê o melhor, na medida em que houver pré-requisitos para se ocupar um cargo eletivo, tão importante na gestão do bem coletivo. Para mim é muita hipocrisia exigir-se treinamento e preparo de médicos, advogados, engeheiros e até dos demais funcionários públicos e não haver exigência de competências mínimas para o exercer político.

A combinação de governantes despreparados (e/ou mal intencionados) com a pressuposição de que a sociedade (seja ela qual for) sabe decidir o seu futuro é o que está trazendo o nosso planeta para um ponto onde o colapso é iminente.

 

 

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