Os pobres filantropos brasileiros

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Filantropia vem do grego φίλος (amor) e άνθρωπος (homem), e significa “amor à humanidade”. Em tese é um sentimento que todos deveriam ter, é natural e independe de religiões, embora estas sempre o tenham como premissa básica do que é importante em nossa vida. O termo, entretanto, é utilizado quando queremos nos referir às formas altruístas de ajudar o próximo, sejam através de doações ou trabalhos voluntários. Não importa muito se a nossa visão é mais prática ou teórica, a verdade é que a filantropia é, em nossa sociedade, mais falada do que feita.

Empresas se dizem socialmente responsáveis mas, em sua maioria, limitam-se a direcionar recursos de impostos a serem pagos para entidades que podem receber tais subsídios. Indivíduos, sobretudo os mais abastados, sequer se preocupam com o tema já que não há incentivo financeiro para tal – em outros países a legislação fiscal incentiva a doação, a criação de fundações ou coisas do gênero e a filantropia, ainda que impulsionada por fatores externos e nem sempre louváveis, tem força e faz diferença na sociedade. No Brasil qualquer legislação que direciona impostos para a caridade nada mais é que uma hipocrisia disfarçada de incentivo, já que dá com uma mão e tira com a outra na medida em que não provê o básico à população.

A solução para uma sociedade mais equilibrada e justa está portanto nas mãos de cada um de nós. Mas não é fácil fazer o bem em nosso país. Há alguns anos decidi criar uma ONG para atuar na capacitação de outras ONG’s, já que estas, em sua grande maioria, são geridas por voluntários e não possuem conhecimentos de gestão básicos que as permitam sobreviver, quanto mais crescer. A idéia era fazer uso de minha rede de relacionamentos – já que navego há muitos anos no meio empresarial brasileiro e conheço bastante gente – para captar recursos e, a exemplo do que um fundo de investimentos faz com empresas (seleciona, investe e desenvolve), investir em algumas entidades selecionadas. Depois de muita burocracia (sim, há muitas pedras no caminho de quem quer fazer o bem de forma séria e estruturada) abrimos a ONG. A formação de um Conselho Consultivo para a entidade – pré-requisito de alguém que quer apresentar um modelo de governança moderno e com isto transmitir a credibilidade necessária à captação de porte maior – já foi uma dificuldade danada. Convidados, empresários e executivos alegaram não ter tempo para se dedicar ao tema. Com muito custo e depois de 6 meses consegui reunir um time interessante em volta do projeto.

Era hora de sair para a captação. Fomos à luta e…perdemos. Só ouvimos não, mesmo e principalmente de pessoas e empresas que podiam contribuir, mas que preferiram seguir com suas prioridades, ou seja, ficarem mais e mais ricas. Desisti de por em pé o tal projeto pois ele demandaria uma alocação de tempo integral, o que fugia à minha própria capacidade naquele momento. Mas não desisti de contribuir com o que posso e passei a fazer parte do Conselho Consultivo de uma entidade já existente e com a qual me identifiquei desde que a conheci.

Apesar de já estar atuando há mais de 5 anos e ter impressionantes resultados a apresentar – além de ter sido premiada pela Folha de São Paulo, Revista Veja, Prêmio Ozires Silva e a Fundação Yunus – o seu desafio de captação é colossal. Luta-se diariamente para continuar com a causa e a missão a que se propuseram.

Do meu lado fico pasmo, triste, chateado mesmo em ver uma sociedade que não ama o seu semelhante, ou talvez nem mesmo considere semelhantes aqueles que precisam de ajuda. A hipocrisia das empresas “socialmente responsáveis” e a apatia dos ricos deste país chegam a ser patéticas, se não fossem um sinal de uma nação que espera, mas não faz. Que fala, mas não age. Que reclama, mas não atua. Tenta-se abrir portas e elas parecem emperradas, cheias de uma ferrugem que cheira a descaso, que corrompe o sentimento humano mais puro, que transforma a esperança em frustração.

Somos uma nação de pobres filantropos ricos que preferem olhar para o seu extrato bancário do que para a fisionomia de uma criança feliz.

 

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