10 coisas que não te contam sobre o Caminho de Santiago…

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Trilhar o Caminho de Santiago de Compostela é, sem dúvida nenhuma, uma experiência transformadora e única. Eu mesmo já o fiz duas vezes, uma em 2011 e a mais recente agora em 2016. Os desafios físico, emocional e mental são tais que a sua superação faz com que nos sintamos vitoriosos, orgulhosos e renovados para a nossa jornada de vida. É claro que o título deste meu artigo foi para chamar a sua atenção e fazer você pensar: quem é este louco dizendo o contrário do que todo mundo diz? Bem, na verdade eu não estou dizendo para você não fazer o Caminho. Digo apenas que nem tudo são flores por lá e alguns pontos devem ser considerados no seu processo de avaliação sobre as vantagens e desvantagens de uma peregrinação com esta extensão e esforço envolvido. Vamos portanto à lista (tudo baseado no Caminho Francês, o mais popular dos trajetos):

1. O Menu do Peregrino já não é mais a mesma coisa

Na primeira vez que fiz o Caminho pude saborear excelentes “menus do peregrino”, a imbatível combinação de entrada, prato principal, sobremesa, pão e vinho/água oferecida por algo em torno de 10 euros pelos bares e restaurantes ao longo da rota. Parecia que cada local tentava superar o outro com uma comida que, se não era criativa, pelo menos era saborosa e honesta. Passaram-se 5 anos e a coisa se transformou…para pior! Algo de muito grave aconteceu: parece (não posso afirmar mas a sensação foi esta) que para manter a oferta pelo mesmo preço a solução foi abaixar o padrão de qualidade. E isto foi feito com uma adesão em massa a produtos que são comercializados por uma grande cadeia de food-service que padronizou a comida (em especial o macarrão e o molho de tomate, as carnes, etc). Além do que é servido no menu a padronização alcançou as pizzas e até a tradicional paella espanhola – um tal Paellador domina o pedaço – agora retirada diretamente do freezer para o microondas e para o seu prato. Tudo isto sem falar do vinho incluido no pacote: terrível! A inflação é uma realidade por lá também e em 5 anos tudo ficou mais caro. Na tentativa de preservar a possibilidade de um Caminho a baixo custo, a qualidade desceu ladeira abaixo. Se for encarar, aproveite para comer melhor em cidades maiores ou se abasteça nas “tiendas” e faça seu próprio rango!

2. Ficar em albergue não é tão legal assim, e pode ser mais caro que você pensa

Em média você vai pagar 10 euros por uma cama em um beliche duro e barulhento. E vai dividir o seu precioso sono com mais um batalhão com chulé e que ronca. E se isto não bastasse vai ter sempre um “amigo” que vai se levantar as 5 da manhã (ainda escuro, é claro) e começar a preparar a sua mochila, dobrando sacos de plásticos ruidosos e ligando a sua poderosa lanterna de cabeça, especialmente comprada para a peregrinação e que . sem dúvida alguma (Murphy garante esta!) ele vai direcionar para seus fechados olhos. Ou seja, você paga 10 euros para não dormir – a não ser que você seja o sujeito acima descrito!! Minha dica: arrume logo um amigo e divida um quarto privado em um albergue mesmo ou em uma pensão. Vai custar 30 euros (5 a mais por cabeça) e você vai de fato descansar. Não se preocupe: isto não o irá tornar um antisocial ou algo do gênero. Na verdade ninguém irá notar e no dia seguinte seu ser irá agradecer. Esqueça a tal “experiência de peregrino” na qual a “convivência” no albergue é fundamental. Dá para fazer tudo isto sem perder o sono. Vá por mim…

3. Você vai encontrar muitos turistas comuns ao longo do trajeto e eles vão acabar com a sua paz

Infelizmente a verdade é que o Caminho de Santiago (trajeto francês) se popularizou ao extremo e a tranquilidade que se espera quando se parte para uma peregrinação não pode mais ser encontrada ali. Acho que depois do filme The Way a coisa se perdeu. Há centenas de turistas que fazem apenas trechos do Caminho, carregando nada mais do que uma garrafa de água e geralmente fazendo muito barulho (conversam ao celular, gritam uns com os outros, etc), enfim, quebram o clima. Haja abnegação para relevar esta turma. No meu último Caminho me deparei com um ônibus de turistas alemães estacionando nos arredores de Foncebadón. Passei por eles e logo depois a turma toda passou por mim em meio a uma algazarra inconveniente. Estavam fazendo um passeio dominical até a Cruz de Ferro. Isto mesmo: detonando um local “sagrado” para o peregrino com a sua postura turística-popular. Ao chegar na Cruz de Ferro lá estavam todos em poses para o Facebook, etc e tal. Uma lástima. Vejam a cena (reparem no busão esperando a turma!!):

Cruz_de_Ferro

4. Os dias são mais longos do que você imagina, espere por tardes entediantes

Basicamente você caminha das 7 até as 14-15 horas, uns dias talvez até um pouco mais tarde mas em média é isto aí. E então você chega em seu destino (na maioria das vezes um povoado bem pequeno) e lá passa o resto do seu dia. Ficando em albergue ou em uma pensão basicamente a rotina é a mesma: banho, lavar roupa e procurar comida (ver ítem 5 abaixo). Depois disto não há nada para fazer ao não ser conversar (mas pode crer que a conversa de peregrino cansa uma hora) ou ver o tempo passar (ou não passar). O tédio se apodera e é ali que você é testado em sua capacidade de reflexão. Se tiver frio então a coisa se complica pois nem ao ar livre dá para ficar. Em suma: prepare-se para conviver um bom tempo com você mesmo. No final você aprende e até começa a gostar, mas que é um desafio e tanto, isto é!

5. Os espanhóis fazem mesmo a “siesta” e ela é irritante para quem não é de lá

Então você chega na cidade ou povoado lá pelas 15hrs, cansado pacas e louco para comer alguma coisa ou comprar algum remédio ou algo parecido. E…está tudo fechado! Literalmente TUDO! As cidades se tornam fantasmas, a turma toda vai para a casa dormir e você ali, desamparado. Chega a ser irritante. Eles só voltam lá pelas 17-18 hrs (as lojas) ou lá pelas 19-20 (os restaurantes) . Isto mesmo: você tem que esperar até tarde para comer. O que fazer? Eu me entupia com vinho e algumas tapas (geralmente oferecidas como acompanhamento gratuito pelos bares) até os restaurante abrirem. É de matar. Prepare-se e tenha sempre algum snack na mochila pois será útil!

6. Seu corpo vai doer…muito!

A coisa é feia, acredite. Se você não for uma atleta de elite, acostumado a longas caminhadas com uma pesada mochila às costas, você vai sofrer. Pode demorar um pouco mais ou um pouco menos, é verdade. Mas o sofrimento será inevitável. Ele virá na forma de uma tendinite nos pés ou pernas, em bolhas nos dedos ou pés, em contraturas nas costas, enfim, em algum lugar. Mas ele virá. As últimas semanas são particularmente difícies pois sua mente já chegou em Santiago mas seu corpo ainda tem que ir atrás e o bicho pega, você já está exausto e cada quilômetro se transforma em pelo menos uma milha (1,6x). Prepare-se psicologicamente e leve antiinflamatórios e analgésicos poderosos (Tylenol não resolve). Vai doer…e muito!!!

7. Sua mochila vai ficar pesada e você irá sentir

Sim, você leu vários artigos sobre o que levar em sua mochila, assistiu palestras informativas e reduziu ao máximo o peso que está levando. Mas acredite-me: você errou na dose e colocou mais coisas que devia. Acha que estou exagerando? Espere o 2o. ou 3o. dias e diga-me se não tenho razão. Nesta hora faça o seguinte: retire o excesso (você saberá o que é) e mande pelo correio para Santiago (lá você pega e traz de volta). Faça isto e…sinta mesmo assim a danada da mochila mais pesada a cada dia. Não adianta: o peso dela aumenta ao longo do Caminho. É como se ela absorvesse elementos do ar e incorporasse em seu conteúdo. É de lascar. Muita gente despacha a maldita através dos diversos serviços especificamente feitos para isto e oferecidos por onde você passa. Um conselho: se você não tiver problemas de saúde não faça isto. Você estará se rendendo a uma prática que é contra o espírito peregrino. Leve a sua mochila com orgulho e aprenda que na vida levamos uma carga que pesa, mas aguentamos.

8. As descidas irão destruir seus joelhos num passe de mágica

Todos se preocupam com as subidas. O desafio de cruzar os Pirineus no primeiro dia e a subida do Cebreiro são os bichos-papões esperados. Mas não se engane: são as descidas as verdadeiras vilãs do Caminho. Algumas, como a que sai da Cruz de Ferro e desce até Ponferrada são de matar. E os seus joelhos irão sofrer e gritar para que você pare. A dica: use os famosos “walking sticks” ou “bastones” sem medo de ser feliz. Não se preocupe se disserem para você que eles são para amadores. Vá por mim e os utilize em todo o trajeto. Serão seus melhores amigos em todo o Caminho.

9. A chegada em Santiago de Compostela é um pouco frustrante, meio anti-climax

A cidade é linda, quer dizer, a cidade antiga é linda. Mas o problema é chegar até ela. Infelizmente a entrada em Santiago não é nada bonita, pelo contrário. Você chega pela periferia e demora muito, muito, até você chegar na parte antiga da cidade onde os prédios são monumentos e o clima começa a se aproximar daquilo que você certamente espera. A coisa toda é meio anti-climax, sabe. Não corresponde ao que se espera de um local sagrado, cercado de misticismo e tradição. A cidade cresceu em volta do que era o seu núcleo medieval e o acesso à mesma se tornou um martírio, a última provação do cansado peregrino que chega ao túmulo do apóstolo.

10. Você é simplesmente mais um na multidão da cidade sagrada

A quantidade de turistas que passam por Santiago de Compostela diariamente é assustadora e crescente. Grupos e mais grupos de alemães, japoneses, indianos, e tudo quanto é etnia visitam a cidade e a tornam um tanto quanto uma Roma em menor proporção. Lotam restaurantes e demais pontos turísticos e tiram o charme e o clima que se desejaria ali encontrar. O ponto mais decepcionante é a Missa do Peregrino, realizada todos os dias ao meio-dia na Catedral da cidade. Supostamente uma missa “para os peregrinos” vê-se mais turistas comuns do que caminhantes ali. Na verdade a coisa é tao mal feita que você não pode entrar com mochila na igreja (portanto esqueça chegar a Santiago e ir direto para a missa – a não ser que deixe a sua mochila armazenada em um dos locais que oferecem este “serviço” nas imediações da Catedral) e não há local reservado para peregrinos. Chegou lá depois das 11;30 e vai ficar de pé pois os bancos já estarão lotados. É verdade, você não se sentirá especial, apenas mais um na multidão.

 

Concluindo eu te digo: faça o Caminho, apenas ajuste as suas expectativas à realidade na qual ele se transformou. E se quiser mais tranquilidade escolha as rotas alternativas pois parecem (eu não as trilhei e não seu dizer) que são menos cheias e talvez preservem mais a tradição de uma verdadeira peregrinação. Buen Camino!

11 thoughts on “10 coisas que não te contam sobre o Caminho de Santiago…

  1. Se a pessoa faz este caminho não deve questionar sobre o mesmo..

    Simplesmente faça.

    Sem preocupar.
    Com Chulé. Roncos..
    Comida simples..
    Devemos buscar.

    O alimento da alma… O sono merecido f despreocupado..
    A cama para o repouso merecido..

    Enfim você está em busca de você.. Se reencontrar..
    E voltar leve e sublime..
    .Se não esta preparado psicologicamente… Emocionalmente… Espiritualmente.. Não vá… Não faça.

    Vá busca de você mesmo.

    Deixa o luxo de lado..
    Vá simplesmente com muito amor em busca somente da luz…da paz do amor e de você.

    1. Peregrino não reclama. Peregrino Agradeçe.

      Totalmente de acordo com o comentario.

      O Post está na mesma linha do ônibus de alemães.

  2. Eu egoista, reclamei muito de tudo, o eu mesmo, aquele outro eu desconhecido, gostou muito, voltou, voltou, voltou e continua. Às vezes o “eu” agora descoberto, cala a boca do “ego” que vive querendo comandar tudo. Mas os turistas são um saco ! Puro ego!

  3. Concordo com algumas coisas como a mudança do menu oeregrino e a quantidade de turistas. Fiz o caminho duas vezes, em 2001 e 2015 e percebi a diferença no comportamento de quem faz a peregrinação, na quantidade de estabelecimentos comerciais que proliferaram no caminho. Mas, discordo em outros pontos. Acho que o Caminho é de cada um e tb faz um paralelo com a nossa rotina. Depende tb de nós, nos abrirmos para o novo e direcionarmos nossos olhares para o bom. Saber aprender com os nossos erros e um ponto que concordo e deve ser usado na vida: não criar expectativas.

  4. O que foi dito não são inverdades, fiz o caminho em abril de 2016, possei por tudo isso é tirei de letra , dentro do espírito de peregrino e não de ” turi-grino” como o que post atesta.
    Faça o seu caminho com espírito de auto conhecimento e reflexão e verá que as pedras do Caminho serão flores nas lembranças. Ultreia, Buen Camino!

  5. Nunca fiz o caminho, mas considero viável todas as apresentações constatadas ao longo do caminho por nosso amigo… sao pontos de vistas diferentes, mas que não muda o sentimento do peregrino com relação ao caminho… vale ressaltar todas as considerações… sem deixar afetar a Real essência do caminho…

  6. Eu achei bem interessante as colocações do colega peregrino. Eu fiz o Caminho em 2008 e acho que muita coisa mudou de lá até agora, mas também eu não tinha muitas expetativas. Essa é a palavra chave. Tinha bastante gente caminhando com a garrafa da água e nada mais, o restante ia no carro de apoio..todo bem. Eu dormi sempre em albergue e foi com a minha mochila até o final carregando meu peso porque assim o tinha planejado…tudo bem. Acho que cada um sabe o que faz…Mas o alerta do colega é muito pertinente.Obrigado a todos pela atenção.

  7. Dos itens mencionados, só é realmente complicado a questão das hordas de “peregrinos” que ocorrem especialmente no verão. É difícil dividir e curtir K caminho disputando por um lugar para ficar.

    As diferenças culturais ( tipo hora da siesta, tipo de comida, espanhóis que dormem tarde e coreanos que madrugam jovens quecsmonham “bagunçando”, por exemplo) faz parte do aprendizado para sermos tolerantes.
    Uma vez nos EUA fui surpreendido por um americano me questionando/criticando pela atitude “nojenta” de brasileiros de escovar os dentes em um banheiro público, guspindo na pia.
    Aprender a ser tolerante e procurar entender o que outra cultura tem de diferente faz toda a diferença é é chave no espírito do caminho.

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